segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Teóricos e Palpiteiros Educacionais

Não consigo desvincular a minha reflexão acerca da pequena história do Velho, Menino e o Jumento, do que venho vendo no cenário da educação nos últimos anos, especialmente no que diz respeito à educação brasileira.

Assim como no conto popular, parece muito simples que está de fora do caminho palpitar, utilizando-se de discursos ideologicamente perfeitos, racionamente inabaláveis, mas que em si criam apenas isso, cenários utópicos que acabam demonstrando uma frase cada vez mais famosa: A culpa sempre é do professor.

E como a maior das vilas que se propõe a palpitar ultimamente temos a revista veja, que além de já defender literamente que a culpa era do professor, ainda veio com outros elementos meio duvidosos, como uma pretensa pesquisa feita entre os professores brasileiros, dizendo que estes, apesar dos péssimos resultados obtidos em todos os exames internacionais (PISA) estavam satisfeitos com a situação educacional do Brasil nos dias de hoje. Não sei as bases utilizadas para tal pesquisa, mas certamente um universo paralelo ao que eu vivo, uma vez que creio que, mesmo eu tendo tido contato com centenas de professores em minhas palestras, colegas de trabalho, contato com eles através de meus livros didáticos, através de minhas consultorias, creio que dê para contar nos dedos os professores que vi contentes com a situação do ensino no Brasil atual, especialmente no que diz respeito ao ensino público .... pensando bem, creio que eu tenha me enganado neste parágrafo, não dá para contar nos dedos, simplesmente porque não há conta. Não encontrei até o presente momento um professor que diga que está contente com a situação de nossa educação nem a nível nacional nem a nível regional (quando e muito professores que dizem que vivem em espécies de último forte inabalado da educação, acreditando ser a sua escola a certa, mas mesmo estes entusiastas tem por claro a situação crítica de nossa educação como um todo)
Quando eu ainda era um estudante nas cadeiras na USP, tive uma matéria na faculdade de educação entitulada "Prática do Ensino de História" esta era ministrada por uma professora que não entrava em sala de aula no ensino fundamental e médio desde o final da década de 70. Ela simplesmente não podia crer nas coisas que nós, alunos, contávamos para ela, especialmente pois muitos de nós já lecionávamos mesmo antes de terminarmos a graduação. Entretanto, ainda pior do que este caso, que tenho certeza que a maior parte dos leitores acharão gritante, é vermos pessoas se tornarem respeitadíssimas no que se diz respeito à teoria educacional, sua opinião ser levada em conta nas políticas públicas e nas regras que guiarão a nossa escola, e serem estas pessoas completos "virgens" de sala de aula, sem jamais terem entrado em uma sequer a não ser como observador.
Por melhor que fosse a argumentação de cada um dos pontos de passagem de nossa história, por mais que tivessem razão, por mais que simplesmente pudessem com clareza diagnosticar os problemas, nenhuma era capaz de entender realmente a situação, ao menos não como o menino e o velho que estavam na caminhada.
Da mesma forma como a educação brasileira, o problema não é simples de se resolver e não adianta simplesmente ficar lançando culpas por todos lados, e obviamente as culpas sempre recairão para o lado mais fraco, que atualmente infelizmente é o professor, talvez o menos ouvido no que se trata da definição de tais políticas públicas ou na criação das teorias educacionais. Assim como o velho e o menino, a solução não era simples pois simplesmente quaisquer das opções tomadas poderia levantar um embate moral provando que a decisão que tomaram estava errada, ainda poderiam surgir novas idéias que não apareceram na história, mas aparecem o tempo todo quando se trata da educação: "Que Absurdo, o correto era que tivessem dois jumentos, um para cada pessoa" mas simplesmente ignorando que nem o menino e nem o velho (e muito menos o jumento) poderiam resolver essa situação.
Os professores raras vezes são levados em conta (e normalmente quando são levados em conta não o são pelo fato de serem professores, mas por outros títulos ou cargos que ocupam). E não são levados em conta simplesmente porque as pessoas de fora os julgam como um dos três elementos desta história.
Alguns julgam os professores como velhos, adeptos de uma linha educacional antiquada e ultrapassada, incapaz de ser eficar no mundo moderno com tantas mudanças e liberdades, e simplesmente tais professores são tratados como dinossauros, esquecendo-se de toda a experiência que possuem, ainda que, por força do momento histórico em que viveram, não tenham tanta prática em explicar o conhecimento de ensino que desenvolveram nesses anos, que certamente vai além do preenchimento de fichas, por mais tradicional que seja o ensino.
Outros, mais adeptos do ensino tradicional e contra o que chamam de "novas tendências da educação" (e julgam tão mal que colocam em um mesmo saco novas tendências opostas entre si) mas estes outros julgam os professores como se fossem o menino, ainda muito pequeno para ser capaz de andar e tomar suas próprias decisões, crendo que as técnicas educacionais diversificadas não devem ter vez porque não foram aprimoradas o suficiente, sem levar em conta que é justamente na tentativa e erro de cada professor que a educação será aprimorada. E deixam assim de lado todas as maravilhosas contribuições que temos pela frente, como por exemplo a utilização dos jogos em sala de aula (não posso deixar de fazer uma propaganda do meu trabalho aqui, é claro, uma vez que trabalho há anos no desenvolvimento de jogos educacionais e certamente são visto como o menino da história).
Mas ainda há um terceiro grupo, que simplesmente encherga os professores como os jumentos da história. Como se eles fossem simplesmente responsáveis por "carregar" alunos de um lado para o outro. E ridiculamente fazem comparações ridículas e sem o menor significado, que vão desde "a culpa é do professor" e coisas muito mais pedantes e doídas ao meu ver, como a comparação entre um professor e um mecânico de automóveis. Dizendo que o mecânico desmonta todo o motor até achar o problema e depois monta de novo, mas o professor não se preocupa em buscar o problema individual e amorosamente de cada aluno, e por não se dedicar a cada aluno com o mesmo amor e acuidade que um mecânico desmonta suas peças, é que a educação brasileira está como está.

....
Agora, mesmo sendo professor, não posso deixar de fazer uma crítica severa aos professores também, não todos, mas a muitos. Justamente por tantos quererem se intrometer sem nos ouvir, por tantos criticarem duramente a forma como fazemos nosso trabalho (e não importa como a façamos) por tantas coisas ridículas lermos por aí e simplesmente elas mudarem as leis educacionais sem qualquer embasamento REAL pedagógico, ou com um belo embasamento teórico e nada prático ou que leve em conta as realidades específicas de cada escola, justamente por tudo isso muitos professores simplesmente resolveram AGIR como o menino, o velho e o jumento, aceitando mudar suas posições sem questionar a cada vez que lhe vem uma crítica, ou simplesmente, passivamente, aceitar levar todos nas costas, e por isso, por duro que possa parecer ver, vemos na cidade da educação, velhos e crianças carregando jumentos nas costas, doloridos e tal travessia, sabendo que aquilo não funciona, mas apenas por terem desistido de lutar por aquilo que realmente acreditam. ..... .... e vale dizer ... às vezes parece que lutar pela educação é dar murros em ponta de faca, se eu não tivesse encontrado pessoas realmente dedicadas a esse mesmo fim e que comunitariamente ajudam e dão apoio, provavelmente eu já seria um verdadeiro jumento carregando cargas, desanimado da vida e tendo deixado morrer minha maior paixão, que é lecionar.

Lembre-se que você é convidado a discutir esse texto, será muito bem vindo se o fizer, ainda que discorde de mim. Vamos resgatar a nossa voz e trocarmos idéias pois somente assim é que poderemos construir um mundo melhor.

Pelo professor Leandro Villela de Azevedo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Velho, Menino e o Jumento

Essa história é bem famosa, creio que muitos já devem tê-la ouvido. Apesar de não ter um autor tão conhecido, ser apenas um conto popular, ou seja, algo que muitos deixariam passar, é uma história sobre a qual vale a pena refletir.

Havia em uma vila um velho e um menino. A idade do velho era bem avançada, tinha dificuldade de caminhar, o menino, ainda muito novo, primeiros anos de vida, se cansava fácil, mas esta esperto.

Os dois precisaram fazer um viagem a uma cidade distante. Como não teriam condições de cumprir a viagem sozinhos, mas também não dispunham de muito dinheiro, receberam um velho jumento, muito maltratado pelo tempo, para os acompanhar.

O velho, mais do que prontamente, colocou o menino no lombo do jumento e, com dificuldade, pegou o arreio e foi andando alguns passos a frente indicando o caminho ao jumentinho que ia sem reclamar. O menino acabou por adormecer em cima do jumento por causa da toada ritmada e constante.

Entretanto, em pouco tempo, começaram a passar por um vilarejo. As pessoas viam aquela cena e comentavam entre si horrorizadas:

- Como é ridícula essa cena. O velho mal consegue andar e o menino, que está em plena saúde, nada faz para ajudar o pobre homem. Ao invés disso só fica dormindo. Aproveitador desde criança.

O menino acordou com os comentários e sentiu-se terrivelmente mal. Assim que passaram pela vila fez questão que o velho se sentasse e então ele pos-se a puxar o jumento. O velho protestou um pouco, mas resolveu não reclamar, e foi sua vez e acostumar-se com a toada constante até quase adormecer.

Mas outra vila começou a se aproximar. E então as pessoas da vila, vendo a cena comentaram entre si horrorizadas:

- Que velho mais insensível! obrigando um pobre menino que mal aprendeu a andar a levá-lo, enquanto ele simplesmente descansa. Isso é exploração de trablho infantil, e então começaram a escarnecer o pobre velho.

E assim, saindo daquela cidade, ambos se sentiam mal, resolveram então combinar o que fariam, e decidiram que apesar do jumento ser fraquinho, couro arranhado e algumas feridas, ainda conseguiria levar os dois ao mesmo tempo, assim tomaram seus lugares e foi-se o jumento, apesar do peso, sem reclamar nem empacar.

Mas outra vila começou a se aproximar. E as pessoas da vila, vendo a cena, comentaram entre si horrorizadas:

- Que exploração ridícula! Coitado do animal! Nunca ouviram falar em proteção dos animais? Eles tem o mesmo direito que nós! Também são seres humanos. Todos podem ver que o jumento está nas últimas e ainda assim vocês dois sentam-se sobre o jumento??

E assim que sairam da vila, ainda mais envergonhados resolveram mudar e estratégia. Os dois juntos foram caminhando na frente do jumento, puxando ele pela corda. Então, mais uma vila se aproximava. E ao passarem pela vila as pessoas não podiam deixar de comentar entre si:

- Vejam o que a idade faz! Um velho caduco e uma criança inocente e burra. Andam um longo caminho cansando-se, mancando e caindo, mas tendo um jumento não sentam sobre ele. De que adianta o jumento então? Povo sem sabedoria esse!

...

Sairam dali e resolveram discutir entre si a situação pela qual haviam passado .... e então aproximou-se a última cidade, o destino deles. E foi assim que a cidade viu a bizarra cena de um velho manco e um menino que mal sabia andar, entrarem na cidade carregando um jumento nas costas!

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Apesar do fim cômico a história nos faz pensar ... é só chegar nos outros posts a reflexão sobre o tema para que possamos começar a nossa discussão aqui.

Pelo Professor Leandro Villela de Azevedo

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Considerações sobre o Asno de Buridan

Originalmente o objetivo desta história era explicar a idéia de paradoxo. Um nó mental criado por um procedimento racional correto, mas que somente prende nossa mente em um círculo, como um programa de computador que gera uma referência circular, e com isso faz nossa mente "travar".

Apesar dele despretenciosamente ter sido criado com esse objetivo. Essa história, que foi "floreada" por mim, faz refletir sobre algumas outras questões também. Em especial a questão da "receita burocrática".

Cá entre nós, com raras excessões, ou talvez nem tão raras assim, as burocracias são inventadas com boa intenção. Facilitar algum processo, organizar alguma produção, ajudar a organizar informações, facilitar a comunicação, etc. etc. Assim como o filósofo deu uma boa dica ao burro.

Entretanto, o simples seguir da regra como um padrão não refletido em si mesmo gerou ao burro um ciclo vicioso ao qual era impossível sair por contra própria a não ser por uma análise crítica. Infelizmente, entretanto, tenho visto o mesmo ocorrer também no mundo dos humanos. Muitas vezes um processo burocrático qualquer é pensando com um bom objetivo, entretanto o passar dos anos, ou a peculiridade de cada situação exige que ele seja repensado, adaptado ou mesmo substituído por algo mais eficiente. Mas parece que ele se torna peça de idolatria e imutável, justamente por "funcionou por tanto tempo" ou então "funcionou para essa ou aquela situação específica" e parece que quem quer propor mudanças é um revoltado sem causa ou simplesmente preguiçoso.

Veja por exemplo o diário de classe. Em si um mesmo papel que contém todas as informações da turma, notas, presença, conteúdo dado, observações, etc. parece algo eficiente. Especialmente se formos levar em conta o sistema educacional tradicional baseado em obtenção e memorização de conteúdos e quando e muito memorização e aplicação de procedimentos específicos, como o que treina operários-robôs em uma fábrica. Um livro possui conteúdos específicos, que não precisavam ser repensados ou replanejados, apenas reproduzidos, e o professor apenas reproduzia dia a dia no diário o item tal qual aparecia no livro, apenas atribuindo ao aluno uma porcentagem de capacidade de reproduzir o mesmo conteúdo, em forma de uma nota de 0,0 a 10,0 que não deixa de ser uma adaptação de 100% com a ausência da porcentagem e acréscimo de uma vírgula.

Então entram novas técnicas educacionais, novas concepções de educação, novas leis de educação, entra LDB, PCNs, entra construtivismo, interacionismo. .... mas estranhamente as burocracias não são exintas e nem repensadas, apenas mantidas, e somadas.

Por exemplo, não basta a um coordenador ter uma lista de conteúdos dados, realmente não basta, é óbvio para qualquer professor que não basta ter uma litagem passada a um aluno e reproduzida por ele. O processo tornar-se importante. Então o coordenador ter conhecimento do processo também é essencial. Ao mesmo tempo o aluno deixa de ser um número, cada aluno precisa ter um tratamento diferenciado, suas dificuldades serem consideradas, revistas criticam cada vez mais os professores por não se "adaptarem" à modernidade, empresas que não entendem nada de educação fornecem uma falsa modernidade, algo como um programa de tabuada no computador onde um coelhinho pula contente, ou um diário eletrônico, exatamente igual, mas que deve ser digitado ao invés de preenchido à caneta. Entretanto a essência da burocracia não muda.

O campo "conteúdo" necessita de descrições específicas da estratégia de cada aula, o campo "OBS" necessita de anotações sobre cada questão específica de cada aluno, as avaliações precisam ser diferenciadas, mas os campos "avaliação1" "avaliação2" "avaliação 3" e "fórmula de cálculo da média" permanecem. .... exigem o uso do diário diariamente, parece óbvio, mas ao mesmo tempo não é permitido rasura. Fala-se do aprendizado com o erro. É importante que o aluno erre e aprenda com o próprio erro ... mas muitas vezes obriga-se professores a passarem o diário inteiro a limpo para não ficar "feio" por uso de um corretivo ao ter se confundido no passar de um dígito de um aluno. ... O que dizer então quando, com o perdão da palavra, a burocracia está sendo idolatrada não por um ser humano, mas por um personagem da crônica de Buridan, neste caso até mesmo a tonalidade da cor da caneta azul pode ser motivo de crítica.

Mas a culpa não é dos coordenadores, afinal muitas vezes estes ficam no fio da espada com medo de outra figura mítica ainda mais assustadora, os supervisores de ensino, que quando seres pensantes, auxiliam a escola em cada caso e fazem diferença no dia a dia do professor, mas quando personagens de fábulas, passam apressadamente apenas dando uma rápida olhada nos diários e outros documentos em busca de algo incorreto.... .... Antigamente essa postura parecia fazer sentido. Afinal bastava haver na anotação de conteúdo algo como "marx, socialismo, prática social, debate político, ditadura no brasil, etc." o diário e professor eram encaminhados a uma conversa amigável com um representante do governo militar, que poderia fazer o professor perder o seu caminho de casa e desorientado chegar à França ... ou então simplesmente ficar perdido na lista de desaparecidos até os dias de hoje. .... mas o governo militar acabou. Teoricamente o que temos são orientações aos professores, e nenhum tipo de censura em si ... então estes personagens precisam buscar outras palavras a buscar, talvez uma rasura, talvez uma nota mal escrita, quem sabe uma mancha de café?

Mas não é só a educação tradicional que pode cair em uma burocracia paradoxal, todo e qualquer lugar que não reflita constantemente e ativamente sobre os seus procedimentos recai neste princípio. Uma boa escola construtivista pode demorar 10 anos montando um programa, e estranhamente ocorre de centenas de escolas, com realidades diferentes, professores diferentes, público alvo diferentes, e mesmo valores diferentes, simplesmente quererem idolatrar o aparato burocrático criado por aquela escola famosa, ou por achar que o uniforme faz o homem ou por crer que receitas miraculosas. Estranhamente há casos que a própria escola criadora da receita vira escrava da mesma, uma vez que sua estrutura cresce e postos de prestígio hierárquicos são criados de forma tão estrutural e incontestável que viram quase dogmáticos.

Qual o segredo? Ao meu ver, não ter segredo. Refletir, refazer, repensar, cada passo, cada ação, cada ficha a ser preenchida, não temer pensar se o nosso objetivo é querer fazer os alunos pensarem, não temer professar aquilo aqui acreditamos, se nosso objetivo é ser professor, não desanimar e desistir se não queremos ter alunos desanimados e desistindo.

Certa vez ouvi algo, um ensinamento que me valeu muito, e gostaria de poder compartilhar com todos, pois mudou minha vida profissional.

Um profissional, ou melhor, uma pessoa que se dedique ao que for, neste caso à educação, ele tem características e não defeitos ou qualidades em si. Cada característica pode ser um defeito ou uma qualidade dependendo da situação em que ele está inserido.

Vejam um exemplo:

O que podem falar de um professor como intrometido que adora querer se intormeter no que os outros professores estão fazendo e meter o bedelho, também podem chamar de, profissional dedicado a querer trabalhar a interdisciplinaridade

O que podem falar de um professor como alguém que quer sempre inventar moda e não aceita simplesmente "dar aula" também pode ser dito por professor criativo que trabalha com habilidades variadas dos alunos

Pelo Professor Leandro Villela de Azevedo

O Asno de Buridan

O filósofo Jean Buridan nos propõe a seguinte "lenda" ... lenda esta copia de Aristóteles de certa forma, mas como Aristóteles a criou com um cãe e Buridan a adaptou primorosamente para um asno, creio que a versão dele aqui nos seja mais conveniente:

O asno, burro, jumento, seja lá qual definição você prefira, era o mais tolo de todos os animais. sempre olhando para baixo, nunca aceitava ver o que estava à sua frente a não ser aquela pequena quantidade de grama ou feno que passava por ele, não era belo e veloz como o cavalo, não tinha a astúcia do coelho, não era valente como o leão, nem tampouco considerado amigo do homem como o cão. Apenas ficava ali, abusado por todos os homens, desrespeitado por todos os animais.

Certa vez um filósofo resolveu ajudar o coitado do asno por pena dele. Chegou o filósofo e chamou atenção do animal:

- Burro, você é mesmo muito burro!

Este, calado apenas ouvia

- Mas vou lhe dar uma regra de ouro para que você deixe de ser tão burro. Para que você passe a ser um pouco menos burro e tome sempre medidas inteligentes é preciso que você pense antes de agir. Esse é o segredo. Antes de cada ação sua, de cada decisão, analise com cuidado cada uma das opções e somente então escolha.

É óbvio que em uma situação normal um burro jamais entenderia as palavras sábias e humanas de um filósofo. Mesmo assim, por algum motivo misterioso esse burro o entendeu. Não somente entendeu como adorou a idéia e resolveu adotá-la para sua vida.

Passou o dia seguindo o filósofo que, ao filosofar, falava em voz alta sua linha de raciocínio. O burro foi prestando atenção no pensar do filósofo, em cada uma de suas ações e percebeu que era verdade, antes de cada ação do filósofo ele sempre parava, ponderava, media as duas opções e somente então tomava a decisão.

O burro decidiu que essa seria a regra máxima de sua vida, nunca agir antes de ponderar, pensar e decidir.

Eis que o burro volta para seu curral na fazenda, com olhar mais confiante, um sorriso no rosto. E como o destino não ocorre ao acaso, quando chegou parece que um grande presente lhe esperava. Colocaram dois montes de feno bem próximo ao local que ele estava. Seu instinto ardeu-lhe o corpo e resolveu correr para devorar o máximo que podia da iguaria ... mas então lembrou-se de sua nova regra de ouro.

- Antes de qualquer ação preciso ponderar, pensar e decidir como o filósofo fazia. - pensou o burro - veja então: O monte da direita é muito grande, mas o da esquerda também é. O monte da direita chega quase ao teto do celeiro, mas o da esquerda também. ... O monte da direita foi colhido hoje, posso perceber pelo cheiro, mas o monte da esquerda também foi colhido hoje. O monte da direita está verdinho e parece muito gostoso, mas o monte da esquerda também está verdinho e gostoso. O monte da direita tem alguns galhos pequenos que podem machucar minha boca enquanto eu mastigo, mas o monte da esquerda também possui esses galhos. O monte da direita tem algumas folhas secas misturadas, mas o monte da esquerda também tem essas folhas secas.

...

e ali ficou o burro por horas, por dias as fio, tentando achar alguma diferença entre os dois montes de feno iguais. E não sendo capaz de driblar a regra que ele havia acabado de criar para sua vida, e não sendo capaz de agir pela regra, uma vez que ele não viu diferença alguma entre os dois montes, a comida foi estragando na mesma velocidade, e ele ainda incapaz de decidir, até que ele, exausto, caiu desmaiado, e mesmo quando acordou faminto e sem forças ainda não era capaz de ver a diferença entre os montes iguais .... e assim falece o coitado do asno.

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Pois não é a toa que surge o ditado, "DE PENSAR MORREU UM BURRO" .... o nosso burro, de Buridan.

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Claro que essa mesma história pode trazer muitas reflexões diferentes. Mas aqui eu proponho, ao menos a princípio ao menos uma que colocarei em um post separado, mas de mesmo marcador "asno de Burdian" use o menu ao lado para localizar.


Texto pelo professor Leandro Villela de Azevedo

Por que Criei esse Site

Bem vindos ao "Burros, Jumentos e Asnos". Antes que você perca o seu tempo neste site procurando por algo que não encontrará preciso fazer uma pequena introdução. Esse não é um site de piadas, "zoeiras" xingamentos, racismo, ou qualquer coisa do tipo. Sei que o nome peculiar poder sugerir esse tipo de idéia, mas já aviso aqui para que não seja enganado.

Meu nome é Leandro Villela de Azevedo, sou professor de história e filosofia, fazendo meu doutorado na USP em história do cristianismo, apaixonado pela área de educação e pelo pensar do aprendizado humano.

Participo e já participei de vários outros projetos com temas ligados a esse:
i-TV a TV dos Inconformados (TV em si) (Site)
Já tive minha seção de curiosidades históricas dentro do programa do governo do Estado de São Paulo chamado AcessaSP (Site) (Arquivos dos meus artigos)
Participo de uma ONG de jogos educacionais, em especial do RPG (LudusCulturalis) e de um portal da FAPESP de mesmo tema (Narrativas Interativas)
Além de outros projetos, coleções de livros didáticos, consultorias educacionais para a prefeitura de Indaiatuba, palestras em faculdades como Uninove, Mackenzie, FATEMA, etc.

Tudo isso apenas para definir 2 termos:
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