Não consigo desvincular a minha reflexão acerca da pequena história do Velho, Menino e o Jumento, do que venho vendo no cenário da educação nos últimos anos, especialmente no que diz respeito à educação brasileira.
Assim como no conto popular, parece muito simples que está de fora do caminho palpitar, utilizando-se de discursos ideologicamente perfeitos, racionamente inabaláveis, mas que em si criam apenas isso, cenários utópicos que acabam demonstrando uma frase cada vez mais famosa: A culpa sempre é do professor.
E como a maior das vilas que se propõe a palpitar ultimamente temos a revista veja, que além de já defender literamente que a culpa era do professor, ainda veio com outros elementos meio duvidosos, como uma pretensa pesquisa feita entre os professores brasileiros, dizendo que estes, apesar dos péssimos resultados obtidos em todos os exames internacionais (PISA) estavam satisfeitos com a situação educacional do Brasil nos dias de hoje. Não sei as bases utilizadas para tal pesquisa, mas certamente um universo paralelo ao que eu vivo, uma vez que creio que, mesmo eu tendo tido contato com centenas de professores em minhas palestras, colegas de trabalho, contato com eles através de meus livros didáticos, através de minhas consultorias, creio que dê para contar nos dedos os professores que vi contentes com a situação do ensino no Brasil atual, especialmente no que diz respeito ao ensino público .... pensando bem, creio que eu tenha me enganado neste parágrafo, não dá para contar nos dedos, simplesmente porque não há conta. Não encontrei até o presente momento um professor que diga que está contente com a situação de nossa educação nem a nível nacional nem a nível regional (quando e muito professores que dizem que vivem em espécies de último forte inabalado da educação, acreditando ser a sua escola a certa, mas mesmo estes entusiastas tem por claro a situação crítica de nossa educação como um todo)
Quando eu ainda era um estudante nas cadeiras na USP, tive uma matéria na faculdade de educação entitulada "Prática do Ensino de História" esta era ministrada por uma professora que não entrava em sala de aula no ensino fundamental e médio desde o final da década de 70. Ela simplesmente não podia crer nas coisas que nós, alunos, contávamos para ela, especialmente pois muitos de nós já lecionávamos mesmo antes de terminarmos a graduação. Entretanto, ainda pior do que este caso, que tenho certeza que a maior parte dos leitores acharão gritante, é vermos pessoas se tornarem respeitadíssimas no que se diz respeito à teoria educacional, sua opinião ser levada em conta nas políticas públicas e nas regras que guiarão a nossa escola, e serem estas pessoas completos "virgens" de sala de aula, sem jamais terem entrado em uma sequer a não ser como observador.
Por melhor que fosse a argumentação de cada um dos pontos de passagem de nossa história, por mais que tivessem razão, por mais que simplesmente pudessem com clareza diagnosticar os problemas, nenhuma era capaz de entender realmente a situação, ao menos não como o menino e o velho que estavam na caminhada.
Da mesma forma como a educação brasileira, o problema não é simples de se resolver e não adianta simplesmente ficar lançando culpas por todos lados, e obviamente as culpas sempre recairão para o lado mais fraco, que atualmente infelizmente é o professor, talvez o menos ouvido no que se trata da definição de tais políticas públicas ou na criação das teorias educacionais. Assim como o velho e o menino, a solução não era simples pois simplesmente quaisquer das opções tomadas poderia levantar um embate moral provando que a decisão que tomaram estava errada, ainda poderiam surgir novas idéias que não apareceram na história, mas aparecem o tempo todo quando se trata da educação: "Que Absurdo, o correto era que tivessem dois jumentos, um para cada pessoa" mas simplesmente ignorando que nem o menino e nem o velho (e muito menos o jumento) poderiam resolver essa situação.
Os professores raras vezes são levados em conta (e normalmente quando são levados em conta não o são pelo fato de serem professores, mas por outros títulos ou cargos que ocupam). E não são levados em conta simplesmente porque as pessoas de fora os julgam como um dos três elementos desta história.
Alguns julgam os professores como velhos, adeptos de uma linha educacional antiquada e ultrapassada, incapaz de ser eficar no mundo moderno com tantas mudanças e liberdades, e simplesmente tais professores são tratados como dinossauros, esquecendo-se de toda a experiência que possuem, ainda que, por força do momento histórico em que viveram, não tenham tanta prática em explicar o conhecimento de ensino que desenvolveram nesses anos, que certamente vai além do preenchimento de fichas, por mais tradicional que seja o ensino.
Outros, mais adeptos do ensino tradicional e contra o que chamam de "novas tendências da educação" (e julgam tão mal que colocam em um mesmo saco novas tendências opostas entre si) mas estes outros julgam os professores como se fossem o menino, ainda muito pequeno para ser capaz de andar e tomar suas próprias decisões, crendo que as técnicas educacionais diversificadas não devem ter vez porque não foram aprimoradas o suficiente, sem levar em conta que é justamente na tentativa e erro de cada professor que a educação será aprimorada. E deixam assim de lado todas as maravilhosas contribuições que temos pela frente, como por exemplo a utilização dos jogos em sala de aula (não posso deixar de fazer uma propaganda do meu trabalho aqui, é claro, uma vez que trabalho há anos no desenvolvimento de jogos educacionais e certamente são visto como o menino da história).
Mas ainda há um terceiro grupo, que simplesmente encherga os professores como os jumentos da história. Como se eles fossem simplesmente responsáveis por "carregar" alunos de um lado para o outro. E ridiculamente fazem comparações ridículas e sem o menor significado, que vão desde "a culpa é do professor" e coisas muito mais pedantes e doídas ao meu ver, como a comparação entre um professor e um mecânico de automóveis. Dizendo que o mecânico desmonta todo o motor até achar o problema e depois monta de novo, mas o professor não se preocupa em buscar o problema individual e amorosamente de cada aluno, e por não se dedicar a cada aluno com o mesmo amor e acuidade que um mecânico desmonta suas peças, é que a educação brasileira está como está.
....
Agora, mesmo sendo professor, não posso deixar de fazer uma crítica severa aos professores também, não todos, mas a muitos. Justamente por tantos quererem se intrometer sem nos ouvir, por tantos criticarem duramente a forma como fazemos nosso trabalho (e não importa como a façamos) por tantas coisas ridículas lermos por aí e simplesmente elas mudarem as leis educacionais sem qualquer embasamento REAL pedagógico, ou com um belo embasamento teórico e nada prático ou que leve em conta as realidades específicas de cada escola, justamente por tudo isso muitos professores simplesmente resolveram AGIR como o menino, o velho e o jumento, aceitando mudar suas posições sem questionar a cada vez que lhe vem uma crítica, ou simplesmente, passivamente, aceitar levar todos nas costas, e por isso, por duro que possa parecer ver, vemos na cidade da educação, velhos e crianças carregando jumentos nas costas, doloridos e tal travessia, sabendo que aquilo não funciona, mas apenas por terem desistido de lutar por aquilo que realmente acreditam. ..... .... e vale dizer ... às vezes parece que lutar pela educação é dar murros em ponta de faca, se eu não tivesse encontrado pessoas realmente dedicadas a esse mesmo fim e que comunitariamente ajudam e dão apoio, provavelmente eu já seria um verdadeiro jumento carregando cargas, desanimado da vida e tendo deixado morrer minha maior paixão, que é lecionar.
Lembre-se que você é convidado a discutir esse texto, será muito bem vindo se o fizer, ainda que discorde de mim. Vamos resgatar a nossa voz e trocarmos idéias pois somente assim é que poderemos construir um mundo melhor.
Pelo professor Leandro Villela de Azevedo
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
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