Originalmente o objetivo desta história era explicar a idéia de paradoxo. Um nó mental criado por um procedimento racional correto, mas que somente prende nossa mente em um círculo, como um programa de computador que gera uma referência circular, e com isso faz nossa mente "travar".
Apesar dele despretenciosamente ter sido criado com esse objetivo. Essa história, que foi "floreada" por mim, faz refletir sobre algumas outras questões também. Em especial a questão da "receita burocrática".
Cá entre nós, com raras excessões, ou talvez nem tão raras assim, as burocracias são inventadas com boa intenção. Facilitar algum processo, organizar alguma produção, ajudar a organizar informações, facilitar a comunicação, etc. etc. Assim como o filósofo deu uma boa dica ao burro.
Entretanto, o simples seguir da regra como um padrão não refletido em si mesmo gerou ao burro um ciclo vicioso ao qual era impossível sair por contra própria a não ser por uma análise crítica. Infelizmente, entretanto, tenho visto o mesmo ocorrer também no mundo dos humanos. Muitas vezes um processo burocrático qualquer é pensando com um bom objetivo, entretanto o passar dos anos, ou a peculiridade de cada situação exige que ele seja repensado, adaptado ou mesmo substituído por algo mais eficiente. Mas parece que ele se torna peça de idolatria e imutável, justamente por "funcionou por tanto tempo" ou então "funcionou para essa ou aquela situação específica" e parece que quem quer propor mudanças é um revoltado sem causa ou simplesmente preguiçoso.
Veja por exemplo o diário de classe. Em si um mesmo papel que contém todas as informações da turma, notas, presença, conteúdo dado, observações, etc. parece algo eficiente. Especialmente se formos levar em conta o sistema educacional tradicional baseado em obtenção e memorização de conteúdos e quando e muito memorização e aplicação de procedimentos específicos, como o que treina operários-robôs em uma fábrica. Um livro possui conteúdos específicos, que não precisavam ser repensados ou replanejados, apenas reproduzidos, e o professor apenas reproduzia dia a dia no diário o item tal qual aparecia no livro, apenas atribuindo ao aluno uma porcentagem de capacidade de reproduzir o mesmo conteúdo, em forma de uma nota de 0,0 a 10,0 que não deixa de ser uma adaptação de 100% com a ausência da porcentagem e acréscimo de uma vírgula.
Então entram novas técnicas educacionais, novas concepções de educação, novas leis de educação, entra LDB, PCNs, entra construtivismo, interacionismo. .... mas estranhamente as burocracias não são exintas e nem repensadas, apenas mantidas, e somadas.
Por exemplo, não basta a um coordenador ter uma lista de conteúdos dados, realmente não basta, é óbvio para qualquer professor que não basta ter uma litagem passada a um aluno e reproduzida por ele. O processo tornar-se importante. Então o coordenador ter conhecimento do processo também é essencial. Ao mesmo tempo o aluno deixa de ser um número, cada aluno precisa ter um tratamento diferenciado, suas dificuldades serem consideradas, revistas criticam cada vez mais os professores por não se "adaptarem" à modernidade, empresas que não entendem nada de educação fornecem uma falsa modernidade, algo como um programa de tabuada no computador onde um coelhinho pula contente, ou um diário eletrônico, exatamente igual, mas que deve ser digitado ao invés de preenchido à caneta. Entretanto a essência da burocracia não muda.
O campo "conteúdo" necessita de descrições específicas da estratégia de cada aula, o campo "OBS" necessita de anotações sobre cada questão específica de cada aluno, as avaliações precisam ser diferenciadas, mas os campos "avaliação1" "avaliação2" "avaliação 3" e "fórmula de cálculo da média" permanecem. .... exigem o uso do diário diariamente, parece óbvio, mas ao mesmo tempo não é permitido rasura. Fala-se do aprendizado com o erro. É importante que o aluno erre e aprenda com o próprio erro ... mas muitas vezes obriga-se professores a passarem o diário inteiro a limpo para não ficar "feio" por uso de um corretivo ao ter se confundido no passar de um dígito de um aluno. ... O que dizer então quando, com o perdão da palavra, a burocracia está sendo idolatrada não por um ser humano, mas por um personagem da crônica de Buridan, neste caso até mesmo a tonalidade da cor da caneta azul pode ser motivo de crítica.
Mas a culpa não é dos coordenadores, afinal muitas vezes estes ficam no fio da espada com medo de outra figura mítica ainda mais assustadora, os supervisores de ensino, que quando seres pensantes, auxiliam a escola em cada caso e fazem diferença no dia a dia do professor, mas quando personagens de fábulas, passam apressadamente apenas dando uma rápida olhada nos diários e outros documentos em busca de algo incorreto.... .... Antigamente essa postura parecia fazer sentido. Afinal bastava haver na anotação de conteúdo algo como "marx, socialismo, prática social, debate político, ditadura no brasil, etc." o diário e professor eram encaminhados a uma conversa amigável com um representante do governo militar, que poderia fazer o professor perder o seu caminho de casa e desorientado chegar à França ... ou então simplesmente ficar perdido na lista de desaparecidos até os dias de hoje. .... mas o governo militar acabou. Teoricamente o que temos são orientações aos professores, e nenhum tipo de censura em si ... então estes personagens precisam buscar outras palavras a buscar, talvez uma rasura, talvez uma nota mal escrita, quem sabe uma mancha de café?
Mas não é só a educação tradicional que pode cair em uma burocracia paradoxal, todo e qualquer lugar que não reflita constantemente e ativamente sobre os seus procedimentos recai neste princípio. Uma boa escola construtivista pode demorar 10 anos montando um programa, e estranhamente ocorre de centenas de escolas, com realidades diferentes, professores diferentes, público alvo diferentes, e mesmo valores diferentes, simplesmente quererem idolatrar o aparato burocrático criado por aquela escola famosa, ou por achar que o uniforme faz o homem ou por crer que receitas miraculosas. Estranhamente há casos que a própria escola criadora da receita vira escrava da mesma, uma vez que sua estrutura cresce e postos de prestígio hierárquicos são criados de forma tão estrutural e incontestável que viram quase dogmáticos.
Qual o segredo? Ao meu ver, não ter segredo. Refletir, refazer, repensar, cada passo, cada ação, cada ficha a ser preenchida, não temer pensar se o nosso objetivo é querer fazer os alunos pensarem, não temer professar aquilo aqui acreditamos, se nosso objetivo é ser professor, não desanimar e desistir se não queremos ter alunos desanimados e desistindo.
Certa vez ouvi algo, um ensinamento que me valeu muito, e gostaria de poder compartilhar com todos, pois mudou minha vida profissional.
Um profissional, ou melhor, uma pessoa que se dedique ao que for, neste caso à educação, ele tem características e não defeitos ou qualidades em si. Cada característica pode ser um defeito ou uma qualidade dependendo da situação em que ele está inserido.
Vejam um exemplo:
O que podem falar de um professor como intrometido que adora querer se intormeter no que os outros professores estão fazendo e meter o bedelho, também podem chamar de, profissional dedicado a querer trabalhar a interdisciplinaridade
O que podem falar de um professor como alguém que quer sempre inventar moda e não aceita simplesmente "dar aula" também pode ser dito por professor criativo que trabalha com habilidades variadas dos alunos
Pelo Professor Leandro Villela de Azevedo
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
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